Ahmadinejad e sua controversa visita ao Brasil
Ahmadinejad e sua controversa visita
Bruno Lima Rocha ¹
A presença no Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, trouxe à tona uma série de polêmicas, que tanto dizem respeito ao regime integrista de base xiita como a política externa do governo Lula.
Setores de movimentos de homossexuais, de direitos humanos e da comunidade judaica, protestaram contra sua visita em função daquilo que ele e seu regime representam.
De um modo geral entendo as críticas como corretas. É certo afirmar que o governo conservador não respeita as liberdades fundamentais, atenta contra o direito de liberdade religiosa e sexual e persegue minorias.
O que me espanta é o silêncio cínico dos mesmos formadores de opinião que o criticam e nada falam em relação ao visitante anterior, o presidente de Israel Shimon Peres.
Não é necessário listar aqui os crimes de guerra, de Estado e de lesa-humanidade cometido pelos operadores político-militares de Israel contra a população árabe.
Se o governo dos aiatolás iranianos persegue a judeus, muçulmanos sunitas, cristãos de distintos credos, baha’is; a direita sionista financiada pela ajuda externa dos EUA reprime a palestinos, drusos, libaneses xiitas e sunitas e jordanianos.
Em termos de “riscos para a humanidade”, não há diferença substantiva entre o uso da energia nuclear por Israel (que tem a bomba) e o Irã (que pode vir a ter a bomba).
Tais argumentos não se tratam de manobra diversionista, mas de pura constatação dos fatos.
Em tese os protestos tentavam influenciar a política externa brasileira para não aprofundar relações com países que atentem contra valores democráticos.
Afirmo que esta premissa é falsa. Se houvesse esta real intenção, um amplo conjunto de entidades deveria forçar o país a triplicar sua agressividade contra a aberração jurídica chamada Base de Guantánamo.
Os EUA, a partir de sua prepotência imperial, seqüestra suspeitos em diversos países, tortura-os, prende por anos e julga estrangeiros capturados no exterior de acordo com suas próprias leis.
E, para espanto de muitos, tais crimes continuam a ser executados na administração Obama. Infelizmente, a grande mídia brasileira voltara suas baterias simbólicas apenas contra o chefe de Estado iraniano.
Tampouco aqui se trata de apoio ao governo Ahmadinejad. A crítica por esquerda não deveria cair na tentação autoritária de louvar a política integrista.
O Irã ocupa interessante papel no cenário mundial ao contrabalançar a ação colonialista de Israel no Oriente Médio e no Mundo Árabe e Pan-islâmico.
Mas é só. Internamente esse regime reforça valores conservadores, atenta contra direitos humanos e, por sua brutalidade, fornece elementos para posições pró-ocidente.
Ou seja, nenhum pensamento de tipo igualitário poderia somar-se ao apoio ao regime de Teerã e nem a ação imperialista de Tel Aviv.
Infelizmente, Noam Chomsky mais uma vez está com a razão. É lastimável que a bela tradição socialista e humanitária do povo judeu se veja amordaçada pela direita sionista, controladora da opinião externa desta comunidade.
É a mesma infelicidade quando, no Brasil, somos bombardeados por conceitos pela metade e fatos pouco ou mal contextualizados.
¹ Bruno Lima Rocha é cientista político (www.estrategiaeanalise.com.br / blimarocha@via-rs.net)
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