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Cesare Beccaria 

Barbárie: Estados Unidos fizeram experimentos médicos semelhantes aos métodos nazistas

Joseph Mengele - O Anjo da Morte Nazista

Médico compara experimentos dos EUA na Guatemala aos do nazismo.

Mejía lembra que na época da pesquisa os EUA apoiavam o julgamento dos médicos nazistas

Detalhes dos experimentos de médicos americanos com pacientes da Guatemala nos anos 1940 fizeram um dos membros da comissão que acompanha as investigações comparar a pesquisa às técnicas empregadas por cientistas da Alemanha nazista.

Uma comissão de inquérito instaurada pelo governo americano revelou nessa segunda-feira que 1.300 guatemaltecos foram infectados por sífilis, gonorreia e outras DSTs em um experimento que visava provar a eficácia da penicilina. Pelo menos 83 pessoas morreram sem assistência.

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O presidente do Colégio dos Médicos da Guatemala, Carlos Mejía, diz que o número de infectados pode ter chegado a 2.500, segundo indícios de documentos históricos.

Mejia diz que os documentos mostram a injeção de doses concentradas das bactérias causadora da sífilis no olhos, no sistema nervoso central e nos genitais dos pacientes. Segundo ele, essas são aberrações próprias do regime nazista da Alemanha (1933-1945).

“Isso ocorreu em um contexto em que eles mesmos (EUA) estavam julgando os médicos alemães que haviam feito experimentos com tifo e malária em prisioneiros de guerra”, diz.

“Os alemães usaram os poloneses, os russos e os judeus. Os americanos fizeram praticamente o mesmo na Guatemala.”[ad name=”Retangulos – Direita”]

Mejía faz parte da comissão guatemalteca, composta ainda por ministros do governo do presidente Álvaro Colom e representantes da Justiça.

Segundo Mejía, “há evidências suficientes para dizer que houve colaboração entre autoridades americanas e guatemaltecas” durante os experimentos.

Pelo menos nove médicos locais estiveram envolvidos nas pesquisas.

Apenas um deles, como mais de 90 anos, continua vivo, mas está desaparecido.

Desculpas

O vice-presidente guatemalteco, Rafael Espada, disse à BBC que o atual governo deve fazer um pedido de desculpas oficial ao povo do país.

“Os alemães usaram os poloneses, os russos e os judeus (em seus experimentos). Os americanos fizeram praticamente o mesmo na Guatemala.”

Carlos Mejía, presidente do Colégio dos Médicos da Guatemala

O escândalo dos experimentos científicos só veio à tona em 2010, com a publicação de um estudo da historiadora Susan M. Reverby, causando comoção no país centro-americano.

O presidente americano, Barack Obama, pediu desculpas ao colega guatemalteco, classificando as pesquisas de “injustiça histórica, claramente contrária á ética e aos valores (americanos)”.

Os experimentos com prostitutas, prisioneiros, órfãos e doentes mentais tinham como objetivo descobrir se havia um comportamento comum nas infecções de DSTs, a fim de prevenir a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis nos soldados americanos estacionados em várias partes do mundo.

Segundo as autoridades dos dois países, a pesquisa foi feita sem consentimento dos pacientes.

‘Experimentos do demônio’

Um das possíveis vítimas é Marta Orellana, 74 anos, que diz ter participado de constantes “experimentos do demônio” quando tinha apenas 9 anos de idade. Ela vivia em um orfanato na Cidade da Guatemala e cita médicos locais e “estrangeiros”.

O filho de Orellana, Luis Vázquez, disse que só se deu conta da gravidade dos relatos da mãe quando o escândalo estourou, no ano passado.

“Apenas quando escutamos o pedido de desculpas de Obama relacionamos o caso à minha mãe. Tudo fazia sentido: as injeções na genitália, os exames médicos contínuos, a doença”, diz.

Efeito continuado

Sessenta anos após a pesquisa, muitos guatemaltecos ainda padecem dos experimentos.

O Hospital Roosevelt, da capital, examinou recentemente cinco idosos com evidências de que foram vítimas da pesquisa.

“Começamos também a documentar casos em que filhos de afetados foram infectados.

Embora não apresentem sintomas de sífilis, a doença continua ativa (em seu organismo)”, diz Mejía.

O governo da Guatemala diz que há outros casos de possível contaminação ainda não confirmados.

Duas ações coletivas de vítimas dos experimentos contra o governo dos Estados Unidos já foram impetradas na Justiça do país.

Os autores, filhos de possíveis vítimas já mortas, pedem indenização.

Ignacio de los Reyes – Enviado especial da BBC à Guatemala

Arquivado em: Crimes contra a humanidade, Declaração Universal dos Direitos do Homem, Direitos Fundamentais, Direitos Humanos, DST - Doenças Sexualmente Transmissíveis, Ética
Publicado em 2 de setembro de 2011 às 08:09 por José Mesquita

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